Agradecimento da Kamuri a todos os nossos parceiros em 2020

Em um dos mitos fundadores do povo Kaingang, conta-se que toda a terra dos povos ancestrais cobriu-se de água, após uma grande inundação, exceto pela parte mais alta de uma serra.

Ali, os sobreviventes se amontoaram, no chão ou nos galhos das árvores. Aflitos, esperando pela morte, ouviram de repente o canto das saracuras.

Gritaram, pedindo ajuda e as saracuras os atenderam, jogando cestos cheios de terra sobre as águas, com auxílio dos patos. E foi assim que a terra se recuperou, e pessoas e animais puderam repovoar os territórios dizimados pela catástrofe.

Esta é uma história de dor, perda, superação e transformação. Mas é principalmente uma história de solidariedade. As saracuras e patos acodem os flagelados num momento especialmente crítico, e se não fosse por eles, qual teria sido o destino da população humana, da fauna e da flora?

Este ano de 2020 nos proporcionou, a todos, oportunidades para sermos patos e saracuras, uns para os outros. A inesperada e arrasadora pandemia, os incêndios espontâneos e os criminosos, a voraz invasão de terras públicas e indígenas, o desmatamento recorde de florestas protegidas por lei, o envenenamento dos rios pelo garimpo ilegal, e o ininterrupto golpe institucional por parte do governo federal contra direitos garantidos pela Constituição: tudo isso tem ameaçado dizimar os povos tradicionais, a fauna e a flora, que acuados no cume da serra, gritam atônitos, mais uma vez, ameaçados de desaparecimento.

Mas cidadãos indignados, instituições públicas, entidades representativas dos povos indígenas e quilombolas, e organizações da sociedade civil, no Brasil e no Exterior, se mobilizaram e se uniram contra a Covid-19 e os golpes da antidemocracia que se instalou no Palácio do Planalto em 2018. Nunca tantas saracuras e patos levaram, em seus cestos, medicamentos, máscaras, cestas básicas, kits de testes rápidos, equipamentos médicos, amparo legal e de saúde, e apoio logístico e emocional aos povos invadidos pelos criminosos, pelo fogo e pela doença.

Graças aos nossos doadores generosos, aos nossos militantes incansáveis e, principalmente, a todos os povos tradicionais que nos inspiram com sua sabedoria, força e orientação, a Kamuri foi uma dessas felizes saracuras, ajudando a construir mais este capítulo difícil, mas esperançoso, da História da luta indígena pela sobrevivência no Brasil.  Obrigado a todos, e um Ano Novo de lutas e muitas vitórias!    

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