Kamuri lança livros didáticos Nhandewa-Guarani

O evento

Durante a 14ª Oficina de Gramática Nhandewa, ocorrida em 25/05/2017, foram lançados, na escola da Aldeia Nimuendajú (Terra Indígena Araribá, em Avaí – SP), os livros didáticos “Lições de gramática Nhandewa-Guarani (vol I)” e “Inypyrũ: Narrativa sagrada da criação do mundo”. Os livros agora publicados foram produzidos ao longo de dez Oficinas (1ª a 10ª Oficina da Gramática Nhandewa-Guarani). Outras quatro Oficinas já foram realizadas (em 2016 e 2017), e o que foi produzido nelas será publicado em Lições de Gramática Nhandewa-Guarani (vol II). O livro sobre as narrativas sagradas da criação do mundo, Inypyrũ, foi resultado da aplicação dos conhecimentos adquiridos nas Oficinas de Gramática e tornou-se um livro de referência da maior importância, tanto por seu valor como livro-texto para professores e pesquisadores da língua em sua ortografia atual, como por seu valor histórico e antropológico. A obra resgata o registro de um mito fundador do povo Nhandewa, coletado por Curt Nimuendajú[1] há mais de 100 anos naquela mesma comunidade, ou seja, com os antepassados diretos dos atuais participantes das referidas Oficinas.

Histórico

Lições de Gramática Nhandewa-Guarani

Em 1997 os indígenas de São Paulo, junto a várias entidades, incluindo algumas universidades paulistas, se reuniram em São Paulo para pressionar o Estado a criar um Núcleo de Educação Indígena na Secretaria de Educação. Nesta ocasião, o cacique da Aldeia Nimuendajú reclamou que as universidades paulistas só trabalhavam com os índios de outros Estados, especialmente da Amazônia, e não se importavam com os índios do próprio Estado. Depois da reunião, o linguista e professor Wilmar D’Angelis, um dos fundadores da Kamuri, buscou saber com o cacique Claudemir, do povo Nhandewa de Nimuendajú, qual seria a sua necessidade, ou que demandas eles teriam para apresentar. O cacique Claudemir explicou que gostaria que o dialeto Nhandewa fosse estudado e que tivessem um material próprio nessa língua para ser usado nas suas escolas.

A partir dessa conversa, o linguista da UNICAMP buscou alunos interessados em estudar o dialeto, formando-os para atender à demanda da comunidade indígena. Inicialmente, com sua aluna Consuelo Costa, dedicaram-se ao processo de coleta de dados para a realização de uma ampla análise linguística desse dialeto. Em 2000 houve uma Convenção Linguística para definir a ortografia do Nhandewa-Guarani paulista e do norte do Paraná, uma vez que se trata do mesmo dialeto. Na sequência, passaram ao trabalho de produção de um primeiro livro de leitura. Em 2002, como resultado desse trabalho, foi lançado pelo Núcleo de Cultura e Educação Indígena[2] o primeiro material escrito nessa língua, “Nhandewa-Rupi – Nhande Aywu Ãgwã, Para falarmos na nossa língua”. Esse material tem sido usado nas escolas Nhandewa do norte do Paraná, interior de São Paulo e em algumas aldeias do litoral paulista.

A língua Nhandewa, falada pelas comunidades do norte do Paraná (Laranjinha e Pinhalzinho) e pelas comunidades paulistas das aldeias Itaporanga, Barão de Antonina, Nimuendajú, Piaçaguera, Djakoaty, Itaoca-Tupi, Ribeirão Silveira e Bananal, encontra-se ameaçada, e em risco de extinção.

Durante a 2ª Conferencia de Educação Indígena do Estado de São Paulo, em maio de 2013, os professores Nhandewa voltaram a solicitar à FUNAI, e à Unicamp – na pessoa do professor Wilmar D’Angelis, a retomada do trabalho com a língua Nhandewa. Com o apoio da Kamuri e do Grupo de Pesquisa Indiomas, do IEL/Unicamp, foi realizado um primeiro encontro na Aldeia Nimuendajú, já em agosto de 2013. Ao mesmo tempo, foi encaminhado à Coordenação Geral de Promoção da Cidadania da FUNAI-Brasília o projeto “Gramática e Site Nhandewa”. O projeto foi aprovado e as oficinas vêm sendo realizadas desde então com apoio da FUNAI. Em maio de 2017 aconteceu a 14ª Oficina de Gramática Nhandewa, sempre na aldeia Nimuendajú, em parceria com a FUNAI e o Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), através do Grupo de Pesquisa Indiomas.

O projeto tem como objetivos a formação continuada dos professores no domínio da língua escrita e falada do idioma Nhandewa, a produção de uma gramática pedagógica, e a consolidação do site “nhandewa.org” como instrumento pedagógico e de fortalecimento da língua Nhandewa (ou Tupi-Guarani, como eles próprios tem referido, como autodenominação).

Em três anos de projeto, além de ampliar a formação linguística dos professores indígenas e o aprimoramento da língua falada, houve também uma ampla participação e mobilização dos alunos e da comunidade, que vêm (re)aprendendo a língua.

Ao longo desse processo, a maioria dos professores indígenas aprendeu a língua Guarani. Aqueles que não falavam nem escreviam, hoje têm essa competência. Alguns deles podem entender e escrever, e já definiram como próxima meta a competência na oralidade, no que já estão trabalhando.

Como um efeito associado do trabalho com a língua, muitos professores e outras pessoas da comunidade voltaram a frequentar mais constantemente a casa de reza (opy guatsu), por um interesse maior no uso e conhecimento da língua e da cultura tradicional. Inversamente, o retorno ao convívio na Opy por parte significativa da comunidade passou a fortalecer o conhecimento e apropriação da língua no cotidiano da aldeia. O fortalecimento desse vínculo entre o estudo atual da língua Nhandewa e a revalorização de espaços fundamentais para a compreensão e o aprendizado do modo próprio de ser guarani (nhande reko) é, talvez, o efeito mais positivo de um trabalho como esse, de resgate e valorização da língua através de sua reinserção efetiva em uma comunidade, de forma participativa e coletiva, com os jovens, velhos e crianças.

  1. Em 1906 o jovem alemão Curt Unkel foi trabalhar com um grupo Guarani Nhandewa (chamados por ele, à época, de “Apapokuva”), reunidos junto ao Rio Batalha. Foi a primeira experiência de campo daquele que se tornaria o maior etnólogo brasileiro da primeira metade do século XX. Ele conviveu com o grupo por alguns anos, recebendo deles o nome Nimuendajú, que adotou como sobrenome ao se naturalizar brasileiro em 1922.
  2. O Núcleo de Cultura e Educação Indígena da Associação de Leitura do Brasil, fundado em 1995, tornou-se entidade autônoma em 2006, sob o nome “Kamuri”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>