Faleceu nesta 4ª feira, dia 22/07, o Cacique  Nelson Jacinto Xangrê, aos 74 anos. Ele sofreu um enfarto fulminante na Terra Indígena Iraí, norte do Rio Grande do Sul, onde morava. Nelson pertencia à metade Kanhru, “râ ror”, os Kaingang de marca redonda.
Em 1976 ele e seus companheiros começaram um trabalho de esclarecimento aos Kaingang de Nonoai.  Havia mais de 20 anos a T.I. de Nonoai estava ocupada por posseiros, muitos dos quais entraram como arrendatários e foram ficando, além de fazendeiros grileiros que permanecem ocupando parte daquela área até hoje. Os políticos instigavam os pequenos agricultores a ficarem na terra indígena, prometendo que elas lhes seria titulada.
Tornando-se Cacique em 1977, no ano seguinte Nelson liderou a retirada pacifica das mais de 1.300 famílias de ocupantes, numa ação demoradamente planejada, que se iniciou colocando fogo em 5 escolas de comunidades de invasores, dentro da terra indígena, no dia 4 de Maio. No mesmo dia, indo de casa em casa, grupos de kaingang armados com arco e flecha davam um dia para que os ocupantes deixassem suas casas. As pessoas saíram e se colocaram a beira da estrada. Eles eram mil índios e os ocupantes 5 mil pessoas.
Xangrê dizia que ficava condoído pelas criancinhas que tiveram que ir para os acampamentos, em pleno inverno, mas afirmava: eles têm o governo por eles, os Kaingang não teêm. Eu tenho que pensar na minha gente.
Ele tinha consciência que não seria sobre as áreas indígenas que se resolveria a falta de terra para os agricultores, mas as terras improdutivas e os latifúndios. Do acampamento que surgiu da saída dos agricultores de Nonoai, começou o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.
A Kamuri presta sua homenagem a esse homem inteligente e sensível que mudou a história indígena no Brasil e mudou a história do Brasil.
Viva Nelson Jacinto, Xangrê na memória e no coração de todos nós.

Nota: há alguns anos atrás, Nelson Xangrê mereceu ser registrado em um verbete na pequena enciclopédia digital Kaingang, no site “Kanhgág Jógo”. Veja aqui.

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