Catarina Delfina dos Santos certamente é o nome mais conhecido, nacionalmente, das lideranças indígenas do litoral paulista. Seu povo é herdeiro e continuador dos multiseculares ocupantes Tupi da costa sudeste. Quando migrantes de fala Guarani (hoje conhecidos por Nhandewa) chegaram ao baixo Vale do Ribeira, vindos do Paraguai, e dali seguiram para o litoral sul de São Paulo, na primeira metade do século XIX, ali encontraram os últimos remanescentes dos “Tupi de São Vicente” (como os mencionava Anchieta). Os grupos se uniram, se amalgamaram, e formaram muitas aldeias na região hoje dividida entre os municípios de Peruíbe, Itanhaém e Mongaguá, aldeias que foram sendo expulsas de seus lugares, ao longo da primeira metade do século XX. Seus descendentes são os Nhandewa/Tupi-Guarani, dos quais Catarina foi a liderança feminina mais importante na passagem do século XX ao XXI. Como tal, liderou a luta da sua gente pelo reconhecimento da Terra Indígena Piaçaguera, luta iniciada por uma reocupação, no ano 2000. O reconhecimento oficial, pela FUNAI, foi alcançado em 2002, sendo depois contestado, mas teve sua demarcação finalmente homologada em 2016.

Nascida na Aldeia Bananal (Peruíbe, SP), Catarina vivia, com sua família, em Itanhaém, quando foi chamada a se aproximar do movimento indígena, aos 25 anos. Nos primeiros encontros teve oportunidade de conhecer Ailton Krenak, que foi importante em seu engajamento no movimento nacional indígena. A partir dali, tomando consciência de sua condição de povo indígena expropriado, Catarina iniciou uma trajetória que a levou a se tornar professora do Ensino Fundamental e, mais tarde, professora em cursos de formação de professores indígenas. Foi cacique e, nos últimos anos, além de dedicar-se ao conhecimento e ensino da fitoterapia indígena, vinha se construindo como líder espiritual.
Catarina contribuiu em incontáveis eventos de formação e de revitalização linguística, e em muitas publicações voltadas às escolas indígenas. Foi também co-autora do livro “Remédio do Mato: cura e cultura através da floresta”, publicado em 2023 (juntamente com Andreza Poitena e Simone Takuá). Em 2025 participou como compositora, tradutora e rezadora na produção do disco “Yramoĩ Djawé – Cantos sagrados da beira do mar” (cultiveresistencia.org).
O nome de Catarina Delfina dos Santos Kunhã Nimbopyruá está inscrito, para sempre, na história das lutas vitoriosas dos povos indígenas no Brasil.


Sobre T.I. Piaçaguera, ver:
https://cpisp.org.br/povos-indigenas-em-sao-paulo/terras-indigenas/terra-indigena-piacaguera/
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