A vacina chegou à Amazônia: há 300 anos!

Wilmar D’Angelis (Linguista – UNICAMP, e membro da Kamuri)

Você acreditaria que indígenas foram vacinados contra a varíola, na Amazônia, há quase 300 anos? Para ser mais preciso, há 296 anos!

Pois é! O registro foi feito pelo cientista francês Charles Marie de La Condamine, em sua viagem pela Amazônia na década de 1740. Em dezembro de 1743 La Condamine ficou retido, em Belém do Pará, por não conseguir remeiros indígenas, uma vez que a maior parte havia fugido das aldeias próximas, por medo do contágio pela varíola. E ao tratar da grande mortandade que essa doença causava entre indígenas, registrou o que segue:

Há uns quinze ou dezessete anos um missionário carmelita da periferia do Pará [ou seja, Belém], vendo que morriam todos os seus índios, um após o outro, e tendo aprendido – pela leitura de um periódico – o segredo da vacinação (inoculación), que estava então em moda na Europa, julgou, prudentemente, que usar este remédio poderia pelo menos transformar em morte duvidosa, o que, usando os remédios comuns, era morte certa. Um raciocínio tão simples não poderia deixar de ocorrer a todos que fossem capazes de refletir e que, vendo os estragos causados ​​pela doença, ouviram falar do sucesso da nova operação; mas esse religioso foi o primeiro na América que teve a coragem de colocá-la em prática. Ele já havia perdido metade de seus índios; muitos outros adoeciam diariamente; ousou injetar varíola em todos os que ainda não haviam sido atacados, e não perdeu nenhum. Outro missionário do Rio Negro seguiu seu exemplo, com igual sucesso.

(LA CONDAMINE [1759], 1962, p. 87-88 – tradução nossa).

A narrativa desta viagem, publicada em 1759, havia sido lida perante a Academia Real de Ciências da França em abril de 1745. La Condamine situa os fatos narrados entre 15 e 17 anos antes, o que seria em torno de 1728 a 1730. Sabe-se, porém, que uma epidemia de varíolagrassou entre 1724-1725”, causando “elevada mortandade entre brancos e ‘mais de mil escravos’, principalmente os índios, como relatou o ouvidor-mor do Pará, José Borges Valério (8 set. 1725)” (CHAMBOULEYRON ET AL., 2011, p. 990). Portanto, devemos situar nessa data a primeira vacinação de indígenas registrada em nosso país, e que se deu entre indígenas do Pará (Belém) e do Amazonas (Rio Negro).

Note-se, porém, um fato curioso: segundo o site da Fiocruz, a vacina contra varíola (que terá sido a primeira vacina criada) foi uma descoberta do médico e naturalista Edward Jenner. Segundo o site,

No século XVIII, Edward Jenner descobriu a vacina antivariólica, a primeira de que se tem registro. Ele fez uma experiência comprovando que, ao inocular uma secreção de alguém com a doença em outra pessoa saudável, esta desenvolvia sintomas muito mais brandos e tornava-se imune à patologia em si, ou seja, ficava protegida. Jenner desenvolveu a vacina a partir de outra doença, a cowpox (tipo de varíola que acometia as vacas), pois percebeu que as pessoas que ordenhavam as vacas adquiriam imunidade à varíola humana. Consequentemente, a palavra vacina, que em latim significa “de vaca”, por analogia, passou a designar todo o inóculo que tem capacidade de produzir anticorpos.

(BIO-MANGUINHOS-FIOCRUZ, s/d). 

A curiosidade está no fato de que Edward Jenner nasceu em 1749 (!) e só realizou suas investigações, que geraram sua vacina antivariólica, no final da década de 1780. Portanto, mais de meio século depois da vacinação bem-sucedida de indígenas na Amazônia brasileira, seguindo o que já seria uma “moda” europeia, nas palavras de La Condamine.

Sendo assim, a história da origem da vacina ainda precisa ser melhor contada. E a do carmelita que salvou os indígenas na Amazônia, também.

A propósito, La Condamine registrou ainda um outro fato, associado à epidemia que presenciou, e que parece típico das elites luso-brasileiras. Referindo-se aos sucessos de cura obtidos pelo missionário carmelita entre os indígenas, continuou:

Depois de experiências tão satisfatórias, sem dúvida se acreditará que na epidemia de 1743, causa de minha retenção no Pará, todos aqueles que tinham escravos indígenas usariam uma receita tão saudável para preservá-los. Eu também acreditaria, se não tivesse testemunhado o contrário; pelo menos quando saí do Pará eles ainda não pensavam nisso. É verdade que metade dos índios ainda não havia morrido.

(LA CONDAMINE [1759], 1962, p. 88 – tradução nossa).

REFERÊNCIAS

BIO-MANGUINHOS/FIOCRUZ.  Como surgiram as vacinas? S/d. Disponível em:

https://www.bio.fiocruz.br/index.php/br/perguntas-frequentes/69-perguntas-frequentes/perguntas-frequentes-vacinas/213-como-surgiram-as-vacinas

CHAMBOULEYRON, Rafael; BARBOSA, Benedito C.; BOMBARDI, Fernanda A.; SOUSA, Claudia R. de. ‘Formidável contágio’: epidemias, trabalho e recrutamento na Amazônia Colonial (1660-1750). História, Ciências, Saúde – Manguinhos, v. 18, n. 4, p. 987-1004.

LA CONDAMINE, Carlos María de.  Viaje a la América Meridional. Trad. Federico R. Morcuende. (4ª ed.). Madrid: Espasa-Calpe, 1962.


TEXTO DE LA CONDAMINE NO ORIGINAL CASTELLANO (a edição original é francesa)

Hace quince o diecisiete años que un misionero carmelita de las cercanias de Pará [ou seja, Belém], viendo que todos sus indios morían uno tras otro, y habiendo aprendido por la lectura de un periódico el secreto de la inoculación, que hacía furor entonces en Europa, juzgó, prudentemente, que utilizando este remedio podría al menos convertirse en dudosa una muerte que, empleando los remedios ordinarios, era demasiado cierta. Um razonamiento tan sencillo no podía por menos de ocurrirsele a cuantos eran capaces de reflexionar y que, viendo el estrago ocasionado por la enfermedad, oían hablar del éxito de la nueva operación; pero este religioso fue el primero en América que tuvo el valor de ponerle en ejecución. Había perdido ya la mitad de sus indios; otros muchos caían enfermos diariamente; se atrevió a inyectar la viruela a todos los que aún no habían sido atacados, y no perdió ni uno solo. Outro misionero del rio Negro siguió su ejemplo con el mismo éxito.

Después de unas experiencias tan satisfactoria, se creerá, sin duda, que en la epidemia de 1743, causa de mi detención en Pará, todos los que tenían esclavos indios usarían una receta tan saludable para conservarlos. También lo creería yo sí no hubiese sido testigo de lo contrario; al menos, cuando salí de Pará aún no se pensaba en ello. Verdad es que todavía no habían muerto la mitad de los indios. (LA CONDAMINE [1759], 1962, p. 87-88).

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