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Nota da Diretoria da Kamuri sobre a segunda onda da Covid-19

                Como tragédia anunciada, a cidade de Manaus, capital do Amazonas, vive hoje (meados de janeiro/2021) um cenário que se aproxima ao das epidemias do final do século XIX e início do século XX: pessoas morrendo em casa, sem assistência alguma, ou morrendo às portas dos centros de atendimento à saúde, abarrotados, sem nem mesmo uma cama para serem acolhidas ali. No Brasil, quando autoridades não cumprem a tempo com suas obrigações, agem de forma inepta ou simplesmente se omitem diante dos problemas, essas mesmas autoridades costumam qualificar tragédias como a de Manaus como “uma fatalidade”. Mas o que vemos, hoje, em nosso país à deriva, não são fatalidades, são crimes perpetrados pela incompetência, pela ignorância negacionista, por uma má gestão do setor público e pela mesquinhez do ganho a qualquer custo que forjou os apelos pela abertura desenfreada do comércio para as vendas associadas às festas de final de ano.

                Culpar novas cepas do coronavírus parece que será o “mantra” entoado pelos responsáveis dessa tragédia que, infelizmente, está apenas começando: do Sr Presidente da República ao Governador do Amazonas, do General da pasta da saúde à Prefeitura de Manaus, do leniente STF aos Deputados Federais e Estaduais. O que se tem, de fato, é falta de oxigênio e outros recursos indispensáveis em larga escala, falta de leitos, falta de profissionais de saúde e, principalmente, falta de coordenação nacional, por absoluta incapacidade do atual ocupante da pasta da saúde e pelo caráter obtuso e pelo exemplo negativo do ocupante da Presidência da República, liderando as atitudes de descaso e desrespeito de parte da população a recomendações dos profissionais de saúde.

                Além do horror estabelecido em Manaus, que pode ainda tornar-se mais grave, vivenciamos o temor de que a situação de Manaus se propague rios acima e abaixo, levando o mesmo quadro caótico ao Alto Rio Negro, ao Médio e Alto Solimões, à foz do Madeira e adiante, lugares em que as estruturas de atendimento à saúde da população são limitadas, quando não precárias. E se isso vier a se configurar, ainda uma vez pela inépcia dos governos federal e estadual, o desastre se abaterá de forma inexorável sobre as vulneráveis populações indígenas e ribeirinhas.

                O mundo luta contra uma séria ameaça à saúde das populações. Nosso país, a tudo isso, soma um ingrediente próprio, por obra dos seus governantes: o Brasil vive uma séria crise de saúde pública. Juntamo-nos às forças democráticas e a todos os profissionais de saúde engajados no combate à epidemia, apelando à consciência cidadã de todos os brasileiros contra o relaxamento dos cuidados sanitários e das medidas de distanciamento. E, se resta um mínimo de decência e de postura ética na classe política e nas altas esferas do Judiciário, é urgente agir para libertar o país de uma acefalia tóxica que já vem corroendo as próprias instituições democráticas.

                Nossa solidariedade a todas as pessoas enlutadas pela COVID-19 e, nesse momento, nosso mais profundo sentimento de pesar a toda a população de Manaus.

Campinas, 16 de janeiro de 2021


Note of the KAMURI’s Board on the Second Wave of COVID-19

               As an announced tragedy, the city of Manaus (Amazonas, Brazil) lives today (mid-January / 2021) a scenario which approaches that of the epidemics of the late 19th and early 20th centuries: people dying at home, without any assistance, or dying at the gates of health care centers, crowded, without even a bed to be welcomed there. In Brazil, when authorities fail to meet their obligations on time, act ineptly or simply fail to face problems, these same authorities often describe tragedies as the one in Manaus as “a fatality”. But what we see today in our country, a country adrift, are not fatalities, they are crimes perpetrated by incompetence, by negationist ignorance, by poor management of the public sector and by the meanness of the gain at any cost that forged the calls for the unbridled opening of the trade for sales associated with the holiday season.

               Blaming new strains of the coronavirus seems to be the “mantra” intoned by those responsible for this tragedy, which, unfortunately, is just beginning: from the President of the Republic to the Governor of Amazonas, from the General that comands the health portfolio to the Manaus City Hall, from the lenient STF to Federal and State Deputies. What we have, in fact, is lack of oxygen and other indispensable resources on a large scale, lack of beds, lack of health professionals and, mainly, lack of national coordination, due to the absolute incapacity of the current occupant of the Health Ministery and to the obtuse character and the negative example of the occupier of the Presidency of the Republic, leading the attitudes of neglect and disrespect by part of the population to the recommendations of health professionals.

               In addition to the horror established in Manaus, which may become even more serious, we experience the fear that the situation in Manaus will spread up- and down-rivers, bringing the same chaotic picture to the Upper Rio Negro, the Middle and Upper Solimões, to the mouth from Madeira and beyond, places where the health care structures of the population are limited, if not precarious. And if this were to take shape, yet again due to the ineptitude of the federal and state governments, the disaster will be inexorable, affecting the vulnerable indigenous and riverside populations.

               The world is fighting a serious threat to the health of the people. Our country, in addition to all this, adds its own ingredient, thanks to the actitudes of its leaders: Brazil is experiencing a serious public health crisis. We join us democratic forces and all health professionals engaged in fighting the epidemic, appealing to the citizens’ conscience of all Brazilians against the relaxation of health care and distance measures. And if there is still a minimum of decency and ethical stance in the political class and in the high spheres of the Judiciary, it is urgent to act to free the country from a toxic acefalia that has already been corroding the democratic institutions themselves.

               Our solidarity with all the people bereaved by COVID-19, and at this moment, our deepest feeling of regret to the entire population of Manaus.

Campinas, January 16th, 2021

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