Folha de São Paulo, 30 de abril de 2022

A narrativa dos povos originários está em evidência, mas população desconhece sua realidade

Txai Suruí

Coordenadora da Associação de Defesa Etnoambiental – Kanindé e do Movimento da Juventude Indígena de Rondônia

Como são vistos os povos indígenas no Brasil? O que você responderia se te perguntassem o que é ser indígena? A narrativa dos povos originários está com maior evidência no Brasil e no mundo. Seja pela situação crítica e pelos ataques que vem sofrendo, inclusive por parte do governo, seja pelos modos de vida e visão sobre a natureza que nos fez ser considerados pela ONU os melhores defensores da floresta.

No entanto, ainda existe um enorme desconhecimento e incompreensão sobre o que é ser indígena. Isso é o que nos mostra a pesquisa “Narrativas ancestrais, presente do futuro”, da Amoreira Comunicação.

A luta por territórios e pela valorização da cultura e da sabedoria indígena, principalmente no combate às mudanças climáticas, é algo que vem se fortalecendo cada vez mais.

Mas uma parcela da população ainda não entende ou conhece a realidade desses povos. Ainda existe quem acredite que indígenas não podem ter celular, não podem estar nas redes sociais, que suas aparências têm que seguir os estereótipos criados no imaginário pela história contada pelo colonizador, que é “muita terra para pouco índio” e que na verdade somos um atraso ao progresso.

Essas ideais são visões colonialistas e preconceituosas do que realmente representam essas diversas e ricas culturas que se baseiam na coletividade e na harmonia com a natureza.

Os celulares e as redes sociais hoje são instrumentos de luta utilizados principalmente pela juventude indígena para recontar essa história e denunciar as pressões que seus povos e territórios vêm sofrendo. Mais do que isso, são utilizados para perpetuar e fortalecer os conhecimentos ancestrais e trazem o empoderamento de sermos protagonistas das nossas próprias histórias.

Essa ideia de que não podemos ter celular está ligada a uma percepção de pobreza e de falta de inteligência que são vinculadas aos povos originários. Se você tem celular (se for um iPhone, pior), não é pobre, então não pode ser indígena.

As culturas dos povos indígenas são diversas em línguas, na espiritualidade, nos rituais, nas formas de se pintar e se vestir. Podemos ter cabelos lisos ou enrolados, ser altos ou baixos, ter a pele mais escura ou mais clara, e isso não interfere na nossa identidade.

Para que possamos conhecer melhor e mudar a forma como vemos e tratamos os povos indígenas no Brasil, convido os leitores a seguirem organizações, lideranças e comunicadores indígenas, como Sônia Guajajara, Samela Sateremawe, Tukumã Pataxó, Mari Guajajara, Wari’u, Nara Bare, Ubiratan Suruí, Matsi Wauja, Tapi Yawalapíti, @apiboficial, @coiabamazonia, @zenarede, @paiter_surui, @midiaindiaoficial e muitos outros.

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