Bolsonaro no Alto Rio Negro: ignorância, desrespeito aos povos e fake news

Do alto de sua descomunal ignorância, Jair Bolsonaro sugeriu essa semana, no Amazonas, que além da cloroquina (remédio comprovadamente ineficaz para tratamento precoce da COVID) os brasileiros deveriam adotar fitoterápicos de conhecimento indígena, como os chás de carapanaúba, saracura e jambu.

Ou seja, um dos principais responsáveis pelos maiores crimes que vem sendo cometidos contra povos indígenas, sobretudo na Amazônia, não se envergonha de fazer referência ao conhecimento indígena para levar adiante sua campanha contra a vacinação e contra as medidas sanitárias de distanciamento social.

As infelizes declarações aconteceram em uma live transmitida de São Gabriel da Cachoeira (AM), depois de uma passagem do Presidente por duas terras indígenas da região. Segundo Bolsonaro, os “índios balaios” (uma etnia que não existe) teriam falado a ele sobre curas com os referidos chás.

A ida do Presidente à região foi recebida com uma Carta de Repúdio assinada pelas lideranças do povo Baniwa e pela FOIRN, a principal organização indígena do Rio Negro e uma das mais antigas em ação no Brasil. Na Carta, além de repudiar a própria visita do chefe de governo, os 40 líderes signatários repudiam “sua pauta anti-indígena e anti meio ambiente de abertura das terras indígenas à exploração mineral e outras atividades econômicas predatórias e destrutivas” [1].

No dia seguinte à passagem da dispendiosa comitiva inútil de Bolsonaro pelo Amazonas, a FOIRN (Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro) divulgou Nota oficial, na qual afirma: “deixamos pública a nossa profunda insatisfação com a conduta do presidente da República, Jair Bolsonaro, em sua visita ao município de São Gabriel da Cachoeira”. Segundo esclarece a Nota da FOIRN, mais uma vez o Presidente “demonstra apreço em confundir a opinião pública”, e “ao invés de convidar as lideranças e instituições reconhecidas e comprometidas com o coletivo, privilegiou uma agenda com líderes autoproclamados, como ocorreu na Terra Indígena do Balaio, para mais uma vez produzir fake news e narrativas grotescas sobre nosso povo e nossa cultura”.[2]

Não há nada a acrescentar às claríssimas manifestações das lideranças e organizações indígenas do Alto Rio Negro. Apenas nos solidarizamos com elas, e somos gratos por sua luta tenaz e incansável contra a reiteração de práticas genocidas que nesse exato momento atingem, mais forte e diretamente, os povos Yanomami e Munduruku, vitimados pela sanha do garimpo acobertado até por um Ministro (dito) do Meio Ambiente.

Juracilda Veiga
Coordenadora Geral da KAMURI

[1] CARTA DE REPÚDIO À VISITA DO PRESIDENTE JAIR BOLSONARO À TERRA INDÍGENA YANOMAMI NO ALTO RIO NEGRO E À SUA PAUTA ANTI-INDÍGENA EM FAVOR DA MINERAÇÃO EM TERRAS INDÍGENAS – Terra e Cultura (foirn.blog)  

[2] Nota Pública da Foirn sobre a visita do Presidente da República, Jair Bolsonaro, à São Gabriel da Cachoeira – Terra e Cultura

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