Por Ana Gianfrancesco e Juracilda Veiga

O crime cometido contra Dom e Bruno nos atingiu em cheio. Nós, que estamos sempre em campo, sabemos que isso pode acontecer com qualquer um de nós, a qualquer momento. É por isso que o tiro que atinge um de nós, na verdade atinge a todos.

Quantas vezes, no meio da floresta, não sentimos a presença desses criminosos? Não intuímos estar lidando com este tipo de força, que está em todo lugar, e que às vezes nem sabemos exatamente se são traficantes de drogas, ladrões de madeira, de animais, de minérios, se são do Peru, da Colômbia, do Brasil?

Ao pensar no crime hediondo que tirou a vida de Dom e de Bruno, nos perguntamos: de onde partiu, exatamente, essa ideia perversa e atrevida? Sabemos que o gesto criminoso não pertence apenas às mãos que apertaram o gatilho, então perguntamos: quem são os mandantes desse crime? E quem tem garantido a impunidade que o encoraja?

Como mulheres indigenistas que somos, sabemos que temos mais a temer em uma sociedade de valores misóginos como os que têm sido defendidos pelo regime que se instalou no Brasil em 2018. Mas assassinatos como os de Bruno e de Dom mostram que homens fortes e bem preparados, inclusive com projeção internacional, não estão livres da violência macabra que avança além de suas vítimas preferenciais.

A execução sumária é uma violência que ameaça a todos nós, que nos contrapomos aos destruidores da floresta, aos invasores dos territórios indígenas, aos usurpadores dos direitos das minorias. Homens e mulheres indígenas e indigenistas, ambientalistas e defensores dos direitos humanos, somos todos vulneráveis.

Antes deles, Chico Mendes, Irmã Dorothy Stang, Maxciel  Pereira dos Santos, e centenas de lideranças indígenas e sindicalistas rurais foram mortos sem que seus crimes tivessem sido totalmente esclarecidos, e todos os mandantes  punidos.

Os invasores da floresta e das terras indígenas sabem da importância de tirar gente como eles do seu caminho, pois seu objetivo maior é fragilizar a todos os que pensam e trabalham como eles.

Tudo isso é muito triste e temos que nos fortalecer, pois não basta chorarmos pelos mortos. Estamos numa guerra e por isso temos que ter estratégias. Não podemos subestimar nossos inimigos. Temos que estar atentos e capazes de fazer um contraponto eficaz.

É importante entender que quem está por trás destes assassinatos são todos os que participam do tráfico, das milícias, da extração ilegal dos produtos da floresta e, indiretamente, todos os setores da sociedade que apoiam as políticas atuais da violência armamentista e de expansão do agronegócio e da mineração a qualquer preço.

Vamos nos manter de pé, firmes, e respondendo por Bruno e Dom. Seremos fortes o suficiente para assumir o lugar que eles ocupavam. Mesmo fazendo nosso trabalho dentro de nossas próprias limitações, não deixaremos vazio o lugar dos que foram abatidos pela Amazônia e pelos direitos dos indígenas e de todas as minorias. Não nos derrotarão sem luta.

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