Quando apagamos a violência histórica

Você já disse ou já ouviu dizerem no dia a dia que as línguas indígenas “desapareceram”, “sumiram”, “estão morrendo”, “estão se perdendo”? Provavelmente sim. E já parou para pensar por quê?

Comumente dizemos que existem várias forma de dizer “a mesma coisa”, pois podemos trocar palavras, construir as frases de maneiras diferentes. No entanto, cada enunciado, a depender de sua formulação, evoca certos sentidos ao passo que apaga outros.

Que sentidos são produzidos, então, quando dizemosA gente já teve mais de 1000 línguas indígenas que sumiram, desapareceram, desde o processo de colonização”? Sumir e desaparecer são verbos que tomam como sujeito aquilo ou aquele que some/desaparece, dessa forma apagam as razões do sumiço/desaparecimento. Assim, enunciados desse tipo silenciam a violência colonial(ista) histórica sofrida pelos povos indígenas no território brasileiro, uma vez que a colonização aparece apenas como marco temporal: desde.

Além disso, é natural que, por termos sido colonizados por Portugal, falemos português? É natural que o português tenha “se imposto” e contribuído para que as línguas indígenas “se perdessem”? “Tem índio em São Paulo”? Índio usa tecnologia? A cidade e as novas tecnologias também são “uma ameaça às línguas indígenas”? Esses são alguns dos saberes sobre as línguas indígenas e seus falantes que parecem circular em nosso cotidiano, mas, novamente, que sentidos eles fazem circular? Que estereótipos eles reforçam? Quais suas consequências sócio-políticas?

Essas questões muitas vezes nos passam batidas, pois, tomados simbolicamente enquanto sujeitos pela violência colonial(ista), sequer nos damos conta de que reproduzimos disparidades e preconceitos.

Em sua pesquisa de mestrado, Pedro Ternes Frassetto, aluno da Unicamp e membro da Kamuri, reflete a respeito dessas e de outras questões. Você pode assistir à sua conferência Línguas que se perdem e o apagamento da violência histórica contra indígenas e às demais falas da Mesa-redonda II: Línguas indígenas do Ciclo de Encontros Políticas linguísticas em movimento clicando aqui.

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