Irmã Dorothy Mae Stang completaria 90 anos de idade, no dia 7 deste mês de junho. Sua vida terminou, porém, em um dia quente de fevereiro, em 2005, quando caminhava em uma trilha na mata, em direção a um centro comunitário onde participaria de uma reunião. Levou seis tiros disparados por pistoleiros contratados por fazendeiros da região que tentavam avançar sobre as terras onde foram assentados os trabalhadores rurais que ela defendia. O crime aconteceu em Anapu, pequeno município do estado do Pará. Ela tinha 74 anos na época.

A cerca de mil quilômetros a sudoeste de Anapu, rolos negros de fumaça eram vistos ao longe, na manhã de quarta feira, 26 de maio deste ano, perto de Jacareacanga, também no estado do Pará. O incêndio, localizado na aldeia Fazenda Tapajós, não foi acidental. Em meio à violência que se seguiu ao desmonte, pela Polícia Federal, de pontos ilegais de garimpo em terras do povo Munduruku, homens armados e munidos de galões de gasolina invadiram a aldeia e atearam fogo na casa da líder Maria Leusa Kaba, que se opunha ao garimpo, e na de sua mãe. Este foi o pior, mas não o primeiro momento de terror vivido por Maria Leusa, homenageada em 2015 pela ONU por seu ativismo ambientalista.

Duas semanas antes, mais ao norte, um tiroteio fora do comum sacudia a já tensa situação na aldeia Palimiú, do povo Yanomami, a 230 quilômetros de Boa Vista, capital de Roraima. Tiros de armas pesadas, vindos de lanchas velozes, conduzidas por homens vestidos de preto, revelavam a presença do crime organizado nos vastos garimpos ilegais que, às margens do rio Uraricoera, bem perto da aldeia, rasgam o solo do que foi, um dia, uma densa floresta tropical. O líder Dário Kopenawa, por semanas a fio, pediu o envio urgente de forças federais. Seu temor é ter que assistir de novo um massacre como o de Haximu, em 1993, quando 16 indígenas foram assassinados, no primeiro e único crime a ser julgado como genocídio, no Brasil.

O que estas três histórias têm em comum? Primeiro, o fato de serem episódios de uma situação de violência endêmica, em suas regiões, que já existia bem antes deles, e que perdura até hoje nos mesmos locais e em toda parte do “Brasil profundo”. Em segundo lugar, por descreverem cenários em que pessoas ou grupos são tratados abertamente como “empecilhos” a serem removidos. E em terceiro, por sugerirem a reflexão sobre o que move, de fato, a engrenagem da devastação, da ilegalidade e da remoção de obstáculos humanos no tal “Brasil profundo”, acima e além da ação de uma óbvia bandidagem que viceja nestas regiões.

Garimpeiros e grileiros violentos e predadores são a chaga visível de uma situação de extrema anomia nestas regiões mais distantes dos grandes centros. Mas eles são apenas o sintoma agudo que anuncia uma grave enfermidade. Sabemos que a omissão e a corrupção de órgãos do Estado são parte ativa nessa doença social que já causou a miséria e a morte de milhares de pessoas no campo e em terras indígenas, segundo relatórios disponíveis nos sites da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e do Conselho Indigenista Missionário (CIMI).

Mas a força que move, mesmo, a engrenagem da máquina que transforma pessoas em “empecilhos” a serem removidos, e rios e florestas em “fontes de riqueza” a serem exploradas é a presença massiva do grande capital, nacional e estrangeiro, que enxerga os recursos naturais brasileiros como um investimento, e não como o futuro de toda a humanidade e de uma biodiversidade tão frágil quanto rica.

Só para citar dois exemplos: há poucos dias, o Instituto Socioambiental (ISA) publicou em seu site que a XP Investimentos e o banco BTG Pactual se juntaram em parceria com a BrasilAgro, empresa conduzida por investidores norte-americanos e argentinos, que já derrubou 21 acres de matas nativas, e foi multada pelo IBAMA em 5,9 milhões por desmatamento ilegal. E a mineradora canadense Belo Sun, presente no Pará desde 2003, tem exercido pressão para obter licença para mineração de uma jazida avaliada em 150 toneladas de ouro, a apenas 300 metros do Rio Xingu, em terras indígenas Juruna e Arara. A barragem de rejeitos prevista para este projeto terá capacidade para 35,43 milhões de metros cúbicos, ou seja, mais de 13 vezes maior que a do Fundão, que rompeu em Mariana em 2015.

Muitos garimpeiros e grileiros solo se associam, ou são contratados, por empresas locais, que compram e transportam o equipamento pesado para dentro das matas. Mas o que representa, de fato, essa gente diante dos milhões de dólares movimentados pela engrenagem do grande capital nacional e estrangeiro na mineração, e uso da terra e das florestas no Brasil?

Não é sempre, claro, que a remoção de obstáculos implica no assassinato de tais “empecilhos”, mas a violência está sempre presente como uma espada que pende sobre suas cabeças. E esta visão dos recursos humanos (sobretudo indígenas, ribeirinhos, quilombolas e agricultores pobres) e naturais (terra, rios, madeira e minérios) do país como algo a ser removido e/ou explorado, é uma mera reprodução da mentalidade colonial dos primeiros exploradores estrangeiros que chegaram a Pindorama em 1500 e de suas ações: extrair, saquear e deixar para trás os rastros da destruição. (Por Juracilda Veiga e Maria Cecilia de Sá Porto)



Fonte da imagem: O Globo

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