Nota de esclarecimento a todos os nossos amigos indígenas, indigenistas e pesquisadores das línguas indígenas do Brasil

               Foi anunciado, no último dia 25, o lançamento nacional de uma linha de telefones celulares que podem, pela primeira vez na história do nosso continente, ser habilitados em duas línguas indígenas: o Kaingang e o Nheengatu. Tive a honra de coordenar as equipes de tradutores indígenas das duas línguas que se dedicaram ao exaustivo trabalho de traduzir centenas de milhares de palavras, expressões, frases e operações de comando, para que todos os membros das suas comunidades possam utilizar equipamentos tecnológicos de mais nova geração em sua própria língua. Esse trabalho foi marcado pelo desejo de contribuir para a revitalização das línguas indígenas em perigo de extinção, e nossa meta é justamente a de que os jovens falantes de Kaingang e Nheengatu pudessem usar mais essa ferramenta poderosa para a sobrevivência e o fortalecimento de sua cultura.

               Foi com tristeza, portanto, que recebemos a notícia de que a nossa iniciativa foi recebida com desconfiança por uma jovem líder Kaingang do Paraná, que acusou o nosso trabalho, em redes sociais, de “mercantilização da sua língua ancestral” e de “apropriação cultural explícita”. Não somos iniciantes, nem na área da tradução, do ensino e da pesquisa de línguas indígenas, nem na militância indigenista, em defesa dos direitos dos povos originários do Brasil. Sabemos que esse é um trabalho delicado, que envolve pessoas em cujas memórias a exploração e a violência contra seus direitos fundamentais habitam todas as suas histórias, antigas e novas. É justamente por isso que dedicamos as nossas vidas ao trabalho indigenista, porque o único prêmio que buscamos é a certeza de estar do lado certo da História.

               E em respeito ao público que foi e ainda será atingido por essa postagem, sem saber das verdadeiras condições e intenções que nortearam nosso trabalho, eu presto aqui os esclarecimentos que, esperamos, possam contribuir para a paz e a verdade, entre todos aqueles que fazem parte dessa grande comunidade, à qual todos nós pertencemos, ou como membros étnicos, ou como parceiros na sua luta por justiça.   

                Na referida postagem, o trabalho de oito tradutores indígenas – a maioria são pessoas que atuam há mais de dez anos em projetos e ações de defesa, fortalecimento e divulgação de suas línguas nativas – foi desqualificado como mera “mercantilização da língua Kaingang”, como se tivessem vendido a si próprios e à sua língua, em troca de dinheiro. Essa acusação, que atinge também a mim, não é só infundada, mas profundamente injusta, e me entristece, especialmente por vir assinada por alguém cuja família me conhece bastante bem.

                E quanto à empresa de celulares que nos ofereceu essa oportunidade, se pode ser verdade que se beneficiará com a projeção da sua imagem por associar-se às línguas indígenas, por outro lado não se pode dizer que almeja lucros relevantes, já que os consumidores que podem vir a agregar com essa iniciativa não afetariam o balanço do mercado de celulares no Brasil; há dezenas de línguas indígenas na América Latina que contam seus falantes em milhões, e não em poucos milhares; em qualquer delas a empresa certamente auferiria bons lucros. De qualquer forma, não deixa de ser interessante que uma grande empresa queira se associar à vida de uma língua indígena, e não à sua morte, como tantas que se associaram ao governo Bolsonaro. Difícil aceitar que, com a história que temos, alguém nos acuse de estar do lado dos que querem invadir e violar “o código sagrado” dos Kaingang, quando, há mais de 40 anos, me dedico à sobrevivência e a um melhor futuro do povo Kaingang, da sua cultura e da sua língua.

                Dito isso, esclareço também que:

               1) Nenhum segredo das línguas indígenas foi “aberto” ou “revelado”, por isso não há como falar de uma língua invadida. Somente os falantes das línguas Kaingang e de Nheengatu, e que saibam ler em sua língua, poderão acessar e usar os celulares habilitados nelas. Portanto, é uma ferramenta exclusiva para falantes das línguas Kaingang ou Nheengatu. No caso dos Kaingang, nem mesmo aqueles indígenas que não falam a língua dos seus ancestrais poderão utilizar essa nova funcionalidade dos aparelhos.

                2) A autora da crítica afirma que a língua Kaingang é uma “ferramenta de luta e resistência”. E se realmente pensa assim, peço que reflita conosco: por volta de 2007, quando a população total dos Kaingang era de cerca de 37 mil pessoas, estimávamos que o número de falantes da língua Kaingang, nessa população, estaria em torno de 20 a 22 mil (fato que o Censo 2010 confirmou). Hoje, uma década depois do Censo, a população total Kaingang deve passar de 47 mil pessoas, só que o número de falantes da língua não subiu na mesma proporção; estimamos que hoje esse número não passe de 24 mil pessoas. Sendo assim, estaríamos “protegendo” a língua Kaingang congelando-a em lugares já consagrados, onde ela está claramente perdendo espaço? Ou devemos abraçar a possibilidade de empoderá-la com as tecnologias de comunicação e informação? Alguém hoje em dia duvida de que o desenvolvimento da produção escrita na língua Kaingang, a partir do final do século passado, foi e é um fator de fortalecimento dessa língua? E se a escrita ampliou possibilidades comunicativas e expressivas para o Kaingang, por que não colocar a língua em espaços e instrumentos tecnológicos como a internet, o computador e os telefones celulares que têm o mesmo potencial de empoderamento?

                3) A autora da crítica nos cobrou ainda a “consulta” ao povo Kaingang como um todo. Mas como faríamos isso se o povo Kaingang não possui instâncias próprias representativas de todas as comunidades? Não estamos dizendo que não possui organizações, associações e lideranças, mas a legitimidade delas não se confunde com representatividade. Quem considera o uso do celular em Kaingang uma invasão cultural, por que nunca denunciou a publicação de livros bíblicos em sua língua? E se exige de nós que se consulte “o povo Kaingang”, por que não se pede o mesmo com relação às igrejas que entram em terras indígenas para submeter a população a seus conceitos de salvação? Se todas as mazelas que atingem os Kaingang são feitas sem que ninguém exija consulta aos mais de 45 mil kaingang, por que uma coisa que vem para fortalecer a sua língua seria a primeira e única iniciativa a ser alvo de tão terrível suspeita e oposição?

               O site Kanhgág Jógo (www.kanhgag.org), totalmente em língua Kaingang, está na internet há doze anos. Ele tem utilidade apenas para os falantes dessa língua, inclusive para os professores. Ele permite a superação das distâncias entre as comunidades (as mais afastadas estão a mais de mil km uma da outra), e também a publicação e a divulgação rápida de textos, o que é difícil na forma impressa. Alguém diria que esse site viola a língua Kaingang, ou que revela segredos, ou que deveria ser objeto de consulta pública? 

                À jovem líder indígena e a seus seguidores, que nos acusam de violadores da sua língua ancestral, acho importante ainda dizer: 1) as tarefas de tradução e revisão foram remuneradas pela empresa terceirizada, responsável por elas, como se remunera qualquer trabalho do mesmo tipo; seria o cúmulo do absurdo se os críticos da iniciativa quisessem defender que o trabalho de tradução para as línguas indígenas fosse feito por voluntários, porque são indígenas, enquanto o trabalho do mesmo tipo, feito por não-índios, é trabalho profissional reconhecido e remunerado; 2) pessoas de diversas outras etnias, algumas que sequer conhecemos, nos escreveram nos últimos dias, pedindo uma oportunidade semelhante para suas línguas, percebendo claramente o valor e as possibilidades muito positivas dessa iniciativa; 3) nesta altura da luta dos povos indígenas pelo direito de existir neste país, é preciso que todos exercitem seu olhar crítico e saibam reconhecer quem são seus reais inimigos, e em que lutas devem aplicar o melhor das suas energias.


Wilmar da Rocha D’Angelis

Linguista e indigenista, professor no Departamento de Linguística – UNICAMP

Campinas, 28 de março de 2021

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